Library Music, Alan Hawkshaw e alguns dos samples fundamentais da história do Hip-Hop

Você já ouviu falar sobre música de biblioteca ou library music? Conheça mais em nossa publicação.

Você já ouviu falar sobre música de biblioteca ou library music? Trata-se de um tipo de música pensada, composta e gravada com o objetivo de ser utilizada em produções audiovisuais, como filmes, programas de TV e comerciais, por exemplo.

Um dos pontos principais da library music é justamente o fato de não haver necessidade de contratar um compositor para criar uma trilha sonora personalizada. As músicas são gravadas e arquivadas, por isso o nome de música de biblioteca.

Essa modalidade começou na década de 1950 e teve seu auge na década de 1960, se mantendo relevante em 1970, mas perdendo força a partir da década de 1980. O epicentro aconteceu principalmente na Europa, com destaque para a produção de países como Inglaterra, Alemanha, França e Itália. Os Estados Unidos também fizeram um trabalho interessante nessa área, porém com menos relevância se comparada à efervescência da cena europeia.

Outra característica marcante da música de biblioteca é que as gravações não estavam disponíveis para o público geral. Quem tinha acesso aos rolos de fita eram produtores e pessoas que trabalhavam no ramo do entretenimento, fosse infantil ou adulto. Com o tempo e a expansão desse mercado, ficou claro que essa música poderia ter relevância comercial, principalmente com o aumento do interesse pela música instrumental no mundo todo.

Foi no final da década de 1960 e começo de 1970 que esses selos começaram a lançar algumas compilações no mercado e, a partir da década de 1980 e 1990 – principalmente com a popularização do Hip-Hop e a relevância cada vez maior da técnica do sample – que esse conceito voltou com fôlego renovado e foi alçado ao mainstream.

A Inglaterra, por exemplo, teve a KPM Music, um dos selos mais icônicos deste gênero, casa de músicos que se tornaram verdadeiras lendas, como o pianista Alan Hawkshaw, o foco desta investigação. Alan nasceu em Leeds, em 1937. Depois de tocar em bandas locais durante a década de 1950, acabou fazendo a transição para o trabalho como músico de estúdio, atuando também com foco em trilhas para TV e cinema.

Seu trabalho com a KPM Music começou na década de 1960. Sua habilidade (principalmente manuseando o órgão Hammond) foi bastante requisitada nos discos da KPM. Com o advento do Hip-Hop, não seria exagero dizer que o já falecido pianista se tornou uma lenda entre os apaixonados por sample. Duas de suas composições, “The Champ”, do disco de mesmo nome – lançado em 1968 pelo The Mohawks – e “Here Comes That Sound Again” – que ajudou a criar a cozinha perfeita para “Rapper’s Delight”, lançada pelo Sugarhill Gang – contêm samples das teclas de Alan Hawkshaw. Segundo o website Who Sampled, somadas, essas faixas foram sampleadas cerca de 855 vezes.

A história do sample do The Mohawks é peculiar, pois essa foi a primeira sessão da carreira de Alan Hawkshaw no universo da library music. Ele montou um grupo formado por ele (no órgão e piano), Les Hurdle (baixo) e Byron Davis (bateria).

Esse grupo se transformou na seção rítmica da KPM e participou de diversas gravações, principalmente na década de 1970. Apesar de não serem músicos especialistas no swing do Funk (a galera estava com o pé mais fincado no Jazz), eles conseguiram sustentar o groove na sessão e entraram para a história com um dos primeiros discos de library music que foram disponibilizados para o grande público.

Vale lembrar que todo o disco foi feito nos estúdios da KPM, mas o projeto acabou saindo via Pama Records, gravadora britânica que esteve ativa entre 1960 e 1970. A Pama foi relevante no cenário do UK, principalmente por promover o Reggae no país, além de ter lançado bastante material relevante de Library Music e alguns discos de Rock. Vale ressaltar que grande parte da produção da gravadora foi licenciada de produtores jamaicanos como Alton Ellis e Lee “Scratch” Perry, por exemplo.

O interessante, no entanto, é que “The Champ” foi inspirada numa versão de um Blues, gravado pela dupla Carla Thomas e Otis Redding. A faixa “Tramp” saiu pela Stax Records (um dos maiores selos da história da música negra de todos os tempos) em 1967.

A faixa pode ser escutada no disco “King & Queen”, lançado em março de 1967. Composição do guitarrista de Blues Lowell Fulson (famoso principalmente durante a década de 1940 e 1950) e Jimmy McCracklin (outro nome de destaque do piano blueseiro), essa faixa é no mínimo um plágio inconsciente. Basta escutar a faixa por 30 segundos que é nítida a semelhança, principalmente quando observamos o trabalho dos instrumentos que fizeram a base da canção.

Já o sample de Alan Hawkshaw que entrou pra história com “Rapper’s Delight” é fruto da faixa “Here Comes That Sound Again”, lançada em 1978. Trata-se de um single do grupo Love De-Luxe, banda de Disco do Alan Hawkshaw, conhecida como Hawkshaw Discophonia.

A banda chegou a soltar um play de estúdio recheado de inéditas. “Again And Again” foi lançado em 1979, mas não fez tanto sucesso. O projeto conseguiu emplacar apenas o já citado single nas paradas, porém com o passar do tempo este foi mais um projeto do pianista inglês que ganhou status de cult.

No entanto, é importante mencionar que Alan Hawkshaw não figura na lista de samples da faixa do Sugarhill Gang. Nile Rodgers e Bernard Edwards, guitarrista e baixista do Chic (respectivamente), foram creditados apenas após ameaçarem um processo, já que o single “Good Times” está no bolo dos samples que eternizaram uma das faixas mais importantes da história do Hip-Hop. Mesmo assim, Alan segue na obscuridade, sem ter recebido o devido crédito até os dias atuais e como resultado, pouquíssimas pessoas sabem de sua importância para o desenvolvimento desta que é uma das faixas responsáveis por popularizar o estilo de forma geral.

Hoje em dia, até mesmo os serviços de streaming estão aumentando o acervo desse tipo de música, expandindo cada vez mais o alcance do nicho e apresentando um tipo de som que não foi feito com objetivos meramente comerciais, para cada vez mais pessoas, e Alan Hawkshaw talvez seja um dos maiores exemplos disso.

E para mostrar sua relevância, nada mais justo do que listar 5 samples épicos que eternizaram Alan na história do Hip-Hop e você nem sabia:

1 – Citamos o Sugarhill Gang pra falar do sample presente em “The Champ”, porém diversos outros artistas utilizaram o groove do The Mohawks. Um exemplo disso é a faixa “Step Into a World (Rapture’s Delight)”, do KRS-One, lançada em 1997.

Como foi mencionado no início, essa faixa do Mohawks foi sampleada centenas de vezes e seu uso contínuo como sample é impressionante. Frank Ocean sampleou essa faixa para bolar “Nikes” em 2016. Ini Kamoze, uma das lendas do Reggae Roots, sampleou essa faixa também pra fazer “Here Comes The Hotstepper” em 1994. Big Daddy Kane também entrou na onda e utilizou “The Champ” no bolo de samples em “Smooth Operator”, lançada em 1989. Impressionante, não?!

2 – Outro nome importante que aparece nesse texto é o do Keith Mansfield. Outro cidadão que serviu, serve e muito provavelmente ainda servirá como fonte inesgotável de samples. Uma de suas faixas mais famosas “Funky Fanfare” (1968) foi sampleada por muitos artistas de destaque no cenário mainstream.

Porém, gostaria de destacar um sample do MF DOOM (Just remember ALL CAPS when you spell the man’s name), diretamente de 2005 (época do lançamento do projeto Danger DOOM, em parceria com o Danger Mouse). Esse projeto do Doom não durou muito, porém rendeu um play recheado de experimentos interessantes (The Mouse and The Mask), sendo que um deles é o sample do Keith, que aparece na faixa “Old School”, num feat com Talib Kweli.

3 – Se tem um MC hoje em dia que tem samples muito bem selecionados, esse mano aí é o Curren$y. De Cartola até Keith Mansfield, pode dropar que o pai se vira. Ele trouxe o Keith de volta em 2016 quando usou “Before Summer Ends” pra fazer a base de “Came Up” em 2016. Experimente escutar a faixa original e veja como um tema gravado em 1976 ainda soa atual nos dias de hoje. Essa galera realmente estava à frente de seu tempo.

4 – O Brian Bennett é outro nome bastante citado nessa investigação. É outro exemplo de artista que trabalhou com música de biblioteca e que também possui centenas de samples em seu nome. E o NAS que de bobo não tem nada, já conhecia o trabalho do Brian de longa data. A prova disso é que ele usou a faixa “Solstice” do Brian pra fazer a cozinha de “Find Ya Wealth” em 2000. A pulsação da track está nas costas do Brian Bennett. Coisa linda.

5 – Pra fechar a lista, um sample do puro creme do Rap nacional pra você perceber como a galera do Rap estava ligada na KPM, meu chapa. Destaco o sample do Facção Central, que usou a faixa “Image” (lançada por Brian Bennett em 1974), pra eternizar a clássica “Te Peço Permissão”, eternizada no disco A Voz do Periférico, lançado em 2015.

Seus discos pela KPM Records voltaram com força e estão mais relevantes do que nunca. Abaixo, selecionamos 5 títulos marcantes que o mago das teclas fez para a KPM Records. Essa seleção vai te ajudar a compreender a importância do instrumentista, além de apresentar seu trabalho – e de outros contemporâneos que também foram destaques deste nicho:

1 – The Road Forward (1977)

Dentre a seleção de projetos selecionados para este recorte jornalístico, algumas compilações apresentam contribuições de outros artistas, o que foi feito de forma intencional, para já apresentar alguns nomes que também foram relevantes. Dos 5 trabalhos, apenas este está recheado com faixas únicas e exclusivamente compostas por Alan Hawkshaw.

Esse disco enaltece seu feeling e criatividade para criar grooves irresistíveis, com aquela levada Funk cremosa e bem timbrada. Outro ponto de destaque é sua abordagem inventiva com os sintetizadores.

Esse detalhe é bastante relevante na carreira de Alan, pois ele sempre se interessou e explorou os elementos à sua disposição, buscando novas possibilidades de criar sons a partir das teclas. Escutar seus projetos desde o clássico “The Champ” de 1968 até o final da década de 1970 é também uma viagem pela expansão das capacidades das teclas.

2 – Hot Wax (1976)

Hot Wax é mais um play que apresenta outros compositores importantes da Library Music. Aqui você será devidamente apresentado ao Brian Bennett, John Fiddy e o já citado Alan Hawkshaw. Brian Bennett foi baterista do The Shadows na era pré-Beatles.

O grupo também trabalhou como banda de apoio do cantor Cliff Richard (se apresentando como The Drifters). A banda obteve bastante destaque entre a década de 1950 e 1960, com reuniões frequentes nas décadas posteriores, para delírio dos ingleses. Paralelamente, Brian gozou de notório sucesso no ramo da música de biblioteca. Gravou muito material para a KPM Music e também para o selo Bruton, também da Inglaterra. Nesse disco dá pra observar o swing certeiro do baterista, que vale lembrar, também tocava piano, além de compor e também ter experiência como produtor.

3 – Beat Incidental (1969)

Esse disco é interessante, porque também já apresenta o som do Keith Mansfield para o ouvinte. Compositor e arranjador britânico, Keith foi uma das lendas da Library Music, junto com Alan Hawkshaw.

É possível escutar suas trilhas em diversos nichos da TV, desde o Animal Planet até temas que serviram de trilha para programas da BBC. No Brasil, vale lembrar que ele fez muito sucesso, pois uma de suas composições (“Hyde Park”) foi usada como trilha do programa Esporte Espetacular em 1977. Keith foi um dos colaboradores do Carnaby Street Pop Orchestra e apesar do disco não ter feito sucesso, a trilha sonora do Esporte Espetacular marcou diversas gerações.

4 – Move With The Times (1973)

Move With The Times é dominado pelas composições do Alan Hawkshaw, mas também apresenta o trabalho do David Gold. David foi outro renomado compositor, arranjador e diretor musical britânico. Ele fez contribuições categóricas, principalmente quando o assunto é Jazz, Funk e música orquestrada. Não seria um exagero dizer que David Gold ajudou a definir o som da Library Music na década de 1970. Seus arranjos possuem um toque único e essa marca indelével está presente aqui no Move With The Times. Seu nome é frequentemente esquecido quando as grandes lendas da Library Music são citadas, porém esse disco mostra o tamanho e potência de sua contribuição.

5 – A Jazz Inclination (1975)

Esse é outro blend da KPM altamente recomendável e que além de trazer mais música do Alan Hawkshaw, apresenta o trabalho de Tony Kinsey e Stephen Gray. Tony Kinsey é um dos pilares do Jazz na Inglaterra. O baterista britânico faleceu em fevereiro de 2025 aos 97 anos de idade.

Contemporâneo de nomes como Ronnie Scott (sim, o saxofonista que nomeia um dos clubes de Jazz mais tradicionais de todos os tempos), Kinsey foi muito influenciado pela ascensão do Bebop na década de 1940 e levou essa filosofia para o seu trabalho como compositor, maestro, diretor musical e instrumentista.

Com experiências marcantes, tocando ao lado de mestres como Oscar Peterson e Clark Terry, por exemplo, Tony construiu uma carreira longeva e prolífica, com contribuições marcantes também no cenário de Library Music, que teve Londres como um de seus celeiros fundamentais.

Outro nome que será apresentado nesse projeto é o do Stephen Gray. Conhecido também como Steve Gray nos créditos de Library Music mundo afora, ele tocou ao lado de lendas do Jazz britânico, como Phil Seamen (ídolo de Ginger Baker), além de ter realizado sessões de estúdio com artistas consagrados como Quincy Jones e Henry Mancini.

Vai dizer que você não ficou nenhum pouco curioso?!

Fotos: https://www.thevinylfactory.com/news/ten-kpm-albums-reissued-be-with

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