A música como objeto de estudo revela um caminho de tradições comungadas através do som e do tempo, atravessando gerações centenárias e milenares. Quando o assunto é pesquisa das raízes da música preta, muitos dos responsáveis por manter vivo esse trabalho acabam não sendo mencionados como deveriam. Um exemplo disso é a AACM.
Sigla para Association for the Advancement of Creative Musicians — em tradução livre, algo como “Associação para o Desenvolvimento dos Músicos Criativos” —, a organização foi fundada em Chicago, em maio de 1965, pelo pianista Muhal Richard Abrams, pelo baterista Steve McCall e pelo pianista Jodie Christian, além do compositor Phil Cohran. Foi sob essa liderança que os objetivos artísticos e filosóficos da instituição começaram a ser delineados.

Entre os músicos que deixaram uma marca indelével no núcleo criativo da AACM e se transformaram em referências fundamentais da música improvisada estão Wadada Leo Smith, Roscoe Mitchell e Kahil El’Zabar. Mitchell, por exemplo, ficou conhecido mundialmente como líder do Art Ensemble of Chicago, além de sua atuação como compositor, professor e arranjador. Já Kahil El’Zabar — baterista, percussionista e multi-instrumentista — presidiu a AACM entre 1975 e 1983 e também é líder e fundador do Ethnic Heritage Ensemble, grupo multiétnico com mais de 50 anos de história.
A AACM, por sua vez, construiu um legado que já ultrapassa seis décadas, desafiando o tempo, o status quo e convenções musicais que tentam limitar a criatividade. Groove sem amarras, maior do que qualquer rótulo. São centenas de instrumentistas responsáveis por delinear alguns dos discos mais inventivos já gravados desde os anos 1960.
Essa história segue influenciando profundamente a cena contemporânea do jazz. Um exemplo disso é Angel Bat Dawid — clarinetista, cantora, pianista, produtora, beatmaker e DJ — responsável por alguns dos trabalhos mais aclamados da cena moderna, como o disco The Oracle, lançado em 2019.
Trata-se de um trabalho de pesquisa, preservação e expansão artística que desafia o tempo e também as contradições sociais de um dos países mais racistas do mundo, paradoxalmente conhecido como “a terra da liberdade”. A cidade de Chicago criou um verdadeiro oráculo chamado AACM — e a Intercommunal Music teve a rara oportunidade de entrevistar Kahil El’Zabar, um dos grandes mestres diretamente ligados a essa história e filosofia musical.
Durante a conversa foi possível passar por diversos pontos importantes da essência da música de Kahil. Muita gente não sabe disso, mas foi sua busca por seu próprio som que foi a semente inicial do Ethnic Heritage Ensemble. Vale lembrar que o ás da kalimba foi para Gana como parte do programa de intercâmbio da Lake Forest College, onde entrou em contato com uma sintaxe muito sofisticada e complexa de arpejos harmônicos e estruturas rítmicas. Essa foi a base que ele utilizou para forjar sua identidade.
“Ir para Gana por quase um ano como estudante de intercâmbio foi uma revelação transformadora que ajudou a moldar minha abordagem da música como instrumentista, compositor e líder de banda. Isso me inspirou a abordar minha música com confiança e percepção sobre como expressar excelência artística de uma maneira não eurocêntrica.”
Essa informação sobre como tudo começou é essencial para entender não só os caminhos que o Ethnic Heritage Ensemble tomou, mas também ajuda a entender os rumos criativos de outros projetos com os quais o norte-americano está envolvido, tanto solo quanto ao lado de outros artistas.
Kahil coloca a percussão no front da guerrilha e, pensando no contexto da música pop/mainstream, é interessante observar como ele possui um posicionamento arrojado e uma fagulha criativa que tenta sempre mostrar que é impossível limitar o espaço de um instrumento, ainda mais no contexto em que ele atua, onde os objetivos não são meramente comerciais. Essa talvez seja sua principal contribuição dentro da AACM, como ele reflete numa das perguntas:
“Na AACM daquela época, compartilhávamos uma irmandade inspiradora que fortalecia nossa capacidade de construir uma enorme autossuficiência, música criativamente inspirada, colaboração inovadora e uma visão compartilhada. A vida era empolgante, artisticamente romântica, inequivocamente visionária! O trabalho que todos nós produzimos fala por si só — era isso que mantinha todos nós motivados!”
Quando descobri o vasto acervo de Clifton Henry Blackburn Jr (seu nome de batismo), lembrei do disco Amazonas, de Naná Vasconcelos, lançado em 1973. Nesse marcante registro, Naná coloca o berimbau no centro e é exatamente isso que Kahil faz, independentemente de estar tocando bateria ou percussão. Não é por acaso: ele está desafiando normas pré-estabelecidas.
“É muito óbvio que a percussão e os percussionistas foram percebidos pela crítica ocidental como menos sofisticados do que os chamados instrumentos clássicos ocidentais. Meu reconhecimento global como inovador musical veio décadas depois do reconhecimento recebido por outros colegas da AACM, devido ao viés da crítica musical eurocêntrica ocidental. Quando você sabe que está certo em relação à sua abordagem, precisa encontrar dentro de si mesmo a confiança para seguir firme e perseguir sua visão!”
Foi gravando registros de grande potência em selos marcantes como a Delmark, por exemplo, que Kahil pavimentou seu próprio caminho. Com a experiência de quem tocou ao lado de gigantes como Dizzy Gillespie e tantos outros, sua trajetória na música o fez encontrar grandes almas que, assim como ele, compartilhavam da mesma visão musical.
“Tanto o grande Lester Bowie quanto o grande Malachi Favors eram gigantes criativos! Eles eram forças espirituais inegáveis capazes de mover o público de maneiras mágicas. Eu amava profundamente os dois e adorava fazer música e compartilhar essa irmandade!”
Não seria exagero dizer que Kahil El’Zabar é um dos músicos mais importantes de sua geração. Na minha visão, suas experimentações artísticas o colocam lado a lado de mestres como Max Roach. Inclusive perguntei ao próprio se ele teve influências advindas de Max, principalmente de seu projeto percussivo que surgiu na década de 1970.
“Eu comecei o Ethnic Heritage Ensemble em 1974. Claro que fui inspirado e iluminado por tudo o que o grande Max Roach criou. Ele foi um modelo para mim, porque era um líder musical elegante e articulado, que por acaso também era um percussionista mestre. Tenho trabalhado para dar continuidade a essa tradição.”

Outro pilar essencial que abordamos foi a Delmark Records. Gravadora independente fundada em 1953 por Bob Koester, no Missouri, a Delmark Records é o selo independente de jazz e blues mais antigo dos EUA. Inicialmente o nome do selo era Delmar, porém, para evitar problemas com a marca registrada, alteraram o nome para Delmark após se realocarem em Chicago, já durante o ano de 1958. O selo foi crucial por lançar e documentar a cena de blues de Chicago, além da cena de vanguarda que fez ponte com o jazz. No mesmo selo é possível encontrar discos de nomes como Sun Ra e Yusef Lateef, assim como Junior Wells e Luther Allison.
“O legado da Delmark Records fala por si só. Eles gravaram artistas fundamentais do blues e do jazz de vanguarda, cuja música mudou o mundo! A família Koester também se tornou moderadamente rica através desse empreendimento, como muitas famílias brancas fizeram investindo em música negra.”
Em 2025 o músico celebrou 50 anos de história de seu principal projeto, o Ethnic Heritage Ensemble. Sobre o marco atingido ao lado de sua banda, ele pondera:
“Sou muito grato pelos últimos mais de 50 anos de exploração e criação musical com o agora lendário Ethnic Heritage Ensemble! Tive a grande fortuna de colaborar ao longo dos anos com outros visionários musicais como Light Henry Huff, Edward Wilkerson, Joseph Bowie, Kalaparusha Maurice McIntyre, Ernest Dawkins, Corey Wilkes, Hamiet Bluiett, Alex Harding e agora Ishmael Ali. Todos eles são brilhantes, e foi uma honra criar juntos sob a bandeira do EHE!”
Em tudo que ele faz existe esse cuidado de não só trazer a tradição, mas de moldá-la para um novo tempo e um novo público. Ao lado de Pharoah Sanders e Archie Shepp, Kahil foi um dos nomes que ajudou a levar o jazz e a música africana para novos territórios. Sobre seus contemporâneos, ele crava:
“Tanto o grande Archie Shepp quanto o grande Pharoah Sanders são verdadeiros ícones da música criativa. Os sons e abordagens musicais de ambos tiveram influência profunda na reimaginação da Alta Cultura Afro-Futurista! Sou realmente afortunado e abençoado por ter tido ambos como mentores e colaboradores musicais! Eles estão profundamente no meu coração, e sei que ambos ajudaram a elevar a vibração da minha alma, assim como a de milhões de outras pessoas neste planeta e além!”
Com uma carreira inquieta e extremamente prolífica, Kahil segue gravando aos montes, seja com o EHE, ao lado do saxofonista David Murray ou com seus diversos projetos solo. Com um trabalho multidisciplinar que compreende até mesmo o cinema e o teatro, é possível escutar seu som no score do filme Mo’ Money e na peça The Lion King (versão da Disney), onde Kahil fez os arranjos para as performances de palco — tudo isso fora seu trabalho como poeta e professor.
É um trabalho de reconexão que está intimamente conectado com o lema da AACM: “Ancient to the Future”. A power stronger than itself.” É como ele diz: “O lema da AACM expressa diretamente nossa herança africana ancestral, da qual muitos povos da diáspora africana foram imoral e ilegalmente separados. Nossa intenção dentro da AACM era reinventar maneiras de nos reconectarmos com a força espiritual africana de iluminação cultural e inteligência! Éramos visionários amorosos e inspirados, que se importavam profundamente com nosso povo e com toda a humanidade! Sabíamos em nossos corações e almas aquilo que fomos trazidos a este mundo para fazer — e fizemos isso. No meu mais recente lançamento pela Spiritmuse Records, que chega em 21 de novembro, nós dizemos, gritamos e celebramos: ‘Let The Spirit Out!’. Entende?”
Fique tranquilo, mestre Clifton, nós entendemos o recado.
Por: Guilher Espir