Black Pantera e o protagonismo da música extrema na cultura preta

Em cada projeto, fazer música é um ato político focado em incomodar através de temas como racismo, política e ancestralidade.

Conheci o Black Pantera num dos pocket shows da SIM São Paulo 2019. De lá pra cá, o grupo conquistou espaço na cena pesada nacional e internacional, explorando a veia política e combatendo o apagamento histórico da música negra dentro do contexto Raprockandrollpsicodeliahardcoregga (como diria o Planet Hemp).

Desde o primeiro disco (2015), o trio de Uberaba se destaca pelo viés educativo de mostrar que o Rock também é preto. Os álbuns Agressão (2019) e Ascensão (2022) evidenciam letras que vão muito além dos clichês do gênero. Essa relevância cresceu após a parceria com a DECK em 2022, que levou Charles Gama (guitarra/voz), Chaene da Gama (baixo) e Rodrigo “Pancho” Augusto (bateria) ao circuito de grandes festivais como Lollapalooza e Rock In Rio, culminando nos recentes Perpétuo (2024) e Continental (lançado em agosto de 2026).

Em cada projeto, fazer música é um ato político focado em incomodar através de temas como racismo, política e ancestralidade. E eles sabem que incomodam: o movimento reaça impregnado no Rock, os selos que temem temáticas fortes e os festivais que preferem o silêncio. Eles não vão parar. Sendo uma das bandas fundamentais do cenário nacional contemporâneo, a Intercommunal Music conversou com o trio para um diálogo que conecta o passado, o presente e o futuro da música preta.

1 – Quando o mundo pensa em Punk, pensa em Londres e Nova York em 1977. Mas em 1971 os irmãos Hackney já formavam o Death em Detroit, e em 1974 o Pure Hell quebrava tudo na Filadélfia. Os caras inventaram o Proto-Punk sendo pretos, periféricos e incompreendidos pelas gravadoras na época. Como é para vocês, como Black Pantera, carregar esse mesmo espírito de vanguarda, tocando um som que a indústria muitas vezes tenta embranquecer? Queria que vocês falassem do impacto que esses grupos tiveram na banda.

Pure Hell eu fui conhecer um pouco depois, mas o Death (principalmente quando o vi o documentário “A Band Called Death”, lançado em 2012), aí alugou um triplex na minha cabeça. Eles eram transgressores até mesmo dentro da própria cultura preta. E quando a gente pega as datas, descobre a história e vê que o Death só teve reconhecimento décadas depois é triste.

Mas isso serve pra elucidar o que a gente bate na tecla. As vezes essas bandas ficam no ostracismo, não conseguem ser descobertas ou demoram muito e ainda assim não tem o reconhecimento que deveriam. O Neilton (baixista do Devotos) é um exemplo disso. Ele utilizava afinações pesadíssimas, bem antes da galera do Nu-Metal. Ele estava em Recife e muita gente as vezes nem sabe que eles foram precursores em termos de transpor guitarra, testar afinações. 

É uma banda preta de Pernambuco. É complicado pra qualquer banda presta se sobressair e ter reconhecimento da indústria. Você precisa ser 2x melhor, mais inventivo. O fator raça chega primeiro e o Black Pantera é uma banda antirracista, que fala explicitamente sobre isso também interfere, mas seguimos sempre de cabeça erguida.

– Se o Punk trouxe a atitude, o Bad Brains trouxe a velocidade sobre-humana e a precisão técnica. Bandas gigantes de Thrash Metal, do Metallica ao Anthrax, admitem que só aprenderam a tocar rápido porque viram o Bad Brains no CBGB. Como o hardcore e a espiritualidade do Bad Brains influenciam a forma como o Black Pantera dita o ritmo e a energia no palco hoje?

O Bad Brains é uma força da natureza. Os vídeos antigos estão aí pra ilustrar. Meu sonho é ver um show deles e trocar uma ideia. Eles influenciaram todo mundo. Eram músicos excelentes, tinha esse elemento da rapidez que realmente é uma característica da banda.

Uma das faixas do “Continental” (“Obsoleto”), carrega um pouco disso) e acho que foi por isso que o Derrick Green (Sepultura) aceitou tão fácil nosso convite. Ele também era de uma banda de Hardcore e fã do Bad Brains. Acaba sendo uma homenagem de certa forma – sem querer imitar – mas trazendo o lance da harmonia. A maioria dos músicos tocava Jazz, Reggae, outros estilos… Principalmente pra época, mas também como era feito e gravado.

Tem muita gente que não entende o que a música representa. Tem muito facho usando camisa de banda também, mas boa parte dos fãs de Bad Brains se identifica com o Black Pantera, poisa sabem que isso também faz parte do nosso DNA.

3 – Nos anos 80, o Heavy Metal virou uma cena extremamente branca nos EUA. Mas aí veio o Soundbarrier, sendo a primeira banda 100% negra de Metal a assinar com uma grande gravadora, e logo depois o Living Colour com o Vernon Reid destruindo tudo na guitarra e ganhando Grammys. Vocês sentem que essa barreira técnica e estética que eles quebraram nos anos 80 abriu caminhos para que o Black Pantera pudesse chegar hoje com a técnica e o peso que vocêstêm?

O Living Colour foi um marco. Analisando o Heavy Metal, o Hard-Rock, enfim, o Living Colour aparece na contramão. Eles também sentem o peso do racismo profundamente. Eles já tinham destaque na cena underground, mas não conseguiam gravar com ninguém até o Mick Jagger assistir a um show dos caras e ajudar na produção das demos. 

Se não fosse o Mick Jagger talvez a gente nem tivesse o Living Colour ocupando esse espaço nas paradas ali no fim da década de 1980 e começo de 1990. Como baixista, Muzz Skillings, Doug Wimbish, enfim. Conhecemos a banda desde a época de Rock In Rio 2022. Foram 2 shows em BH e SP. Em SP esse show foi eleito o melhor espetáculo do ano pela Rolling Stone. 

Desde 2022 quando a gente ensaiou com o Devotos para o Rock In Rio. Eles chegaram e a gente conseguiu falar eles pessoalmente que eles foram inspiração pra gente. Todo mundo tinha que assistir um show do Living Colour, é uma aula.

4 – O Crossover Thrash nasceu da fusão perfeita do Hardcore com o Metal. E quando olhamos os pilares desse estilo, os músicos pretos estão lá na base: o Rocky George colocou os solos mais icônicos no Suicidal Tendencies, e o Mackie Jayson destruiu na bateria do clássico ‘The Age of Quarrel’ do Cro-Mags. O som do Black Pantera é puro Crossover. Como vocês enxergam a contribuição desses indivíduos específicos na cozinha e nas guitarras do Crossover mundial?

Quando o Black Pantera nasce nessa veia de pensar no Crossover (até por que a gente não queria ficar preso a um rótulo exclusivo como Heavy-Metal, Hardcore, Punk e etc. O objetivo era fazer tudo isso, a gente quer pensar no groove, também. 

O primeiro disco foi muito intuitivo, surgiu de forma natural. O Fishbone (o baixista John Norwood Fisher) que é um grande baixista. Quando comecei a escutar foi como se eu já entendesse aquilo, a ancestralidade já estava presente. Body Count, Suicidal Tendencies também foram algumas das nossas inspirações e influências… Essas bandas tocam de uma forma muito específica e o Black Pantera acaba trazendo seu próprio molho pra essa mistura.

5 – O Thrash Metal californiano clássico tem uma lenda viva chamada Katon W. De Pena, que lidera o Hirax desde 1984. Ele provou que um frontman negro poderia liderar o Thrash mais rápido e underground do mundo. Sendo vocês uma banda de linha de frente no front do metal nacional, como é ver a longevidade e a resistência de caras como o Katon?

Cara, a gente tocou no mesmo festival que o Hirax em 2025. Foi no Rock Al Parque que acontece na Colômbia. É o maior festival de Rock gratuito e ao ar livre da América Latina. Acontece anualmente na capital, Bogotá e foi simplesmente incrível ver o Hirax ao vivo. Ver o Katon W. De Pena. A gente coleciona e cataloga sobre quem são essas pessoas desde a década de 1990. Antes a gente contava nos dedos. O Sevendust também teve uma influência foda. O vocalista (Lajon Whitherspoon) segue até a minha mãe no Instagram. É impressionante como as coisas vão se conectando através da representatividade.

E se a gente hoje é uma banda antirracista é justamente por causa de todo esse background que tivemos contato.

6) Quando a gente fala sobre resistir no interior de Minas e enfrentar esse conservadorismo, é impossível não olhar para o resto do Brasil e ver quem abriu essas portas no Nordeste. Em 1988, o Devotos (ainda Devotos do Ódio) surgia no Alto José do Pinho, em Recife, mostrando que o Punk Hardcore brasileiro de favela também tinha cara e voz de músicos negros. Vocês já declararam o quanto eles são uma influência gigante. Como foi para o Black Pantera, que veio da correria de Uberaba, se conectar com o Cannibal, o Neilton e o Celo? Dividir palcos históricos com eles — como foi no Rock in Rio — passou para vocês a sensação de que o bastão da resistência do Hardcore preto no Brasil foi oficialmente passado para as mãos de vocês?

O Devotos é especial porque a gente cresceu no interior de Minas Gerais, um lugar onde tudo demora pra chegar. A gente viveu essa era da fita cassete, das gravações, a geração do CD, vinil. Pra certas bandas chegarem pra gente era muito difícil. E a época que isso aconteceu foi incrível, pois eu estava me envolvendo com o Punk e foi uma abertura de menta gigantesca.

Era difícil achar vídeo da banda, era difícil pra escutar muita coisa porque era difícil chegar em Uberaba. Com o tempo foi ficando mais fácil e pra gente foi uma loucura. Ver pessoas parecidas comigo e com outros integrantes da banda tocando punk com letras em português que nos tocavam foi uma grande descoberta.

Crescer com isso foi loucura. Quando eu comecei o Black Pantera o Devotos estava sempre na minha mente, seja pela letra ou atitude. Eles eram uma banda que falava o que precisava ser falado, com pessoas negras… Isso foi libertador. Quando a gente teve o primeiro contato com o Canibal (vocalista e baixista) foi sensacional, porquenunca gostei de ir atrás dos artistas, mas aconteceu um show em BH e nós conversamos com ele. 

Eu só via o cara no encarte do CD, da fitinha cassete e em alguns clipes que passavam. Foi como conhecer uma pessoa da minha família, por que tudo que ele falava estando no Nordeste, soava muito como as minhas vivências em Minas Gerais.Depois disso virou parceria mesmo, a gente se trombou mil vezes, depois veio o convite para o Rock In Rio. Foi um show histórico que está lá pra todo mundo ver e que foi proporcionado pelo Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World.

É um momento único, com duas bandas pretas no dia do Rock no palco do Rock In Rio. De noite ainda teve Living Colour! Estive recentemente em Recife e encontrei o Canibal, passamos a tarde trocando ideia sobre som, as nossas ideias, enfim, a gente sente essa passada de bastão e estamos no corre pra mostrar pra molecada que o Rock preto merece respeito.

7 – Nos anos 90, o Ice-T e o Ernie C montaram o Body Count e pegaram o Crossover Thrash para falar de violência policial e racismo estrutural da forma mais visceral possível com ‘Cop Killer’. O Black Pantera também usa a música pesada como um soco no estômago do preconceito. O Body Count foi uma escola para vocês nessa forma de usar o Metal como manifesto político direto?

Com certeza, essas bandas chegaram pra gente no lugar certo e na hora certa. O Living Colour chegou pra mim, logo depois veio o Bad Brains, Devotos, Body Count.Uma sucessão de artistas incríveis. Aquele Hardcore raivoso com muita fúria, sem dó de canetar – por conta disso tiveram vários problemas – mas a discografia dos caras é uma inspiração gigante.

Não só pelas letras, mas pelo peso que eles conseguem ao vivo. É uma bandaça.Precisamos ver um show deles, é urgente. Foi uma meca de bandas que chegou pra gente até chegar nisso que o Black Pantera faz. Por isso que optei pelo Crossover desde o começo. Eu gostava do Punk brutal do Devotos, gostava do Punk violentíssimo, poderosíssimo com pitadas de Reggae do Bad Brains e adorava o peso e raiva do Body Count na hora de escrever. Tudo isso virou salada musical pra gente.Body Count in the house. Lindo, épico. Salve Ice T.

8. A gente sabe que fazer música pesada e de protesto no Brasil exige um suor dobrado, principalmente quando se está no circuito independente. Mas a história de vocês ganha um impulso gigantesco quando vocês entram para o catálogo da Deck, trabalhando ao lado de uma estrutura que entende o Rock e o Hardcore nacional como ninguém, além da produção do Rafael Ramos. Como tem sido a importância de estar com a Deck para profissionalizar, distribuir e, principalmente, promocionar os lançamentos do Black Pantera? Vocês sentem que essa estrutura deu o megafone que faltava para fazer o discurso contundente e o peso de vocês furarem a bolha do underground e chegarem a lugares que o Metal Preto raramente alcança no Brasil?

Tudo foi se encaixando. A chegada da DECK foi surpreendente pra gente. Eu imaginava que coisas grandes aconteceriam conosco se mantivéssemos os pés no chão. Precisávamos manter a atitude. Quando a gente encontrou o RodrigoLima (vocalista e letrista) do Dead Fish já foi uma mudança gigantesca. 

Ele deu a chance pra gente abrir o show deles no Circo Voador. Foi uma oportunidade gigantesca pra gente. Já sabíamos que o Rafa estaria presente. Foi nessa primeira oportunidade no Circo Voador.

Quando a gente percebeu já estávamos no Rio de Janeiro gravando. A gente teve uma estrutura legal pra trabalhar, conseguimos estruturar nosso com com um produtor que consegue extrair todo o suco sonoro do grupo pra conseguir produzir.

O Rafael Ramos não é só produtor, ele é um quarto integrante da banda e que com certeza teve papel fundamental pra propagar o nosso som. Eu mesmo acompanho a DECK há muitos anos e eles nos proporcionaram muitas coisas.

9. Minas Gerais tem um paradoxo gigante. Por um lado, o estado é o berço do Metal Extremo no Brasil, exportando o Sepultura e o Sarcófago para o mundo nos anos 80. Por outro lado, é um estado historicamente marcado pelo conservadorismo, por oligarquias rurais e por um racismo estrutural e colonial pesadíssimo. Quando vocês se juntaram em Uberaba, em 2014, como foi encarar esse contraste? A cena de música pesada mineira recebeu vocês de braços abertos pelo som, ou o preconceito velado desse legado histórico falou mais alto nos primeiros shows?

Uberaba é uma cidade do interior, então você já imagina como são as condições. Aqui sempre foi o famoso Do It Yourself. Boa parte dos festivais e os eventos que rolavam eram com todo mundo se ajudando. Os movimentos aqui em Uberaba são legais, posso citar até o festival Fora do Eixo da nossa amiga Letícia, que segue resistindo e trazendo grupos legais pra tocar no Pub dela em Uberaba.

Existe uma cena legal que vem desde o começo dos anos 2000 e que com o tempo foi se perdendo. O espaço era menor e isso atrapalhava a realização dos eventos. E quando a banda nasceu foi nesse momento onde a cena estava totalmente parada e isso me causava uma sandice por que eu sempre fui do movimento. Seja tocando com as bandas covers que eu tinha ou indo nos rolês pra ver as bandas que existiam.

Sempre tive vida ativa na cena local. Em 2013 foi ano do planejamento. A banda veio em 2014 mas essa etapa foi muito importante. Eu ensaiei, estudei, fiz as composições… Fiz o primeiro CD praticamente sozinho, em casa.

Mas aí entra a dificuldade de se ter uma banda num lugar que não se tem espaço. É muito difícil, mas eu tinha esse sonho e isso não afasta o fato de que em Minas Gerais a questão do racismo é bastante complicada. Em Uberaba também sempre foi.

Lembro do meu período na escola foi bastante conturbado, simplesmente odiava ir pra escola. Os anos 90 e 2000 foram muito cruéis. Ainda é, mas nessa época era tudo muito explícito.

Lidava muito com o racismo desde jovem. Já tinha essa percepção de diferenças sociais, classes sociais e a estrutura do racismo.

Minha forma de lidar com isso foi formando a banda, foi lendo… A gente não tinha o mesmo acesso que temos hoje então eu fui bastante nas bibliotecas municipais buscar livros de autores e autoras pretas.

Com isso eu conheci os Panteras Negras, os movimentos negros que existiram no Brasil e o resto é história, mas a gente sempre teve que lidar com isso. Lembro de vários fatos relacionados a isso. 

As pessoas falavam: “vai montar uma banda de Rock? Mas vocês são pretos. Preto não toca Rock.”

Essa frase é tão estranha, mas ela faz parte da história do racismo que apaga a história das pessoas pretas e o Black Pantera representa esse tempo de retomada nas nossas cabeças e corações pra nos manter de pé até hoje.

10) Pessoal, queria perguntar sobre a experiencia internacional do grupo desde a apresentação no AfroPunk 2016. Queria que vocês comentassem as passagens mais importantes pra concretizar o nome de vocês na cena. Pergunto isso por que parece que as bandas brasileiras precisam desse “carimbo internacional” pra voltar da gringa com selo de artista e poder ter espaço nos maiores festivais, como o Rock In Rio, Lollapalooza, Bangers Open Air por exemplo.

A experiência na gringa foi tudo uma loucura total. Desde quando mandei algumas músicas da banda para o AfroPunk e eles repostaram com um review maravilhoso. Quando eu vi a gente já estava lá. Mas foi daquele jeito, banda desconhecida, com potencial, porém desconhecida. Foi aquela coisa: a gente tinha uma graninha, mas não pagava tudo, então a gente fez o bom e velho DO IT YOURSELF (faça você mesmo).

O pai do Rodrigo passou um cartão – aliás saudades do seu Derly, muito obrigado por tudo – E ficamos pagando 2 anos de passagem aérea, todos fodidos, mas foi feito. Foi uma experiência maravilhosa pra gente aprender a lidar com isso. A barreira da língua existiu, por exemplo. Quando a gente foi pra lá só eu falava um pouco de inglês. Nada profissional, mas a gente conseguiu se virar comigo.

Fizemos um show no teatro Le Trianon – que é uma das salas de espetáculo mais tradicionais da história de Paris, localizado no icônico 18º arrondissement, bem no sopé da colina de Montmartre – E pô, 3 moleques desconhecidos tendo 30 minutos pra fazer um show. A gente viajou pra França pra tocar 25 minutos no festival e foi incrível. Eu tinha confiança total pra fazer aquele show, me lembro muito bem disso. Lógico, teve o frio na barriga porque a gente mal tocava na região aqui de Minas e do nada a gente foi pra Paris. Mas eu tinha confiança, porque almejei isso a minha vida toda. 

Esse é o momento. E nós fizemos um showzão. Tinha uma pessoa muito especial na plateia que era o Poderoso Chefão do Download Festival, que convidou a gente pra tocar no Download no ano seguinte. Tocamos com System Of a Down, vimos o Linkin Park (com o Chester Bennington), mas realmente precisou dessa validação da gringa pra voltar pra cá e começar a percorrer o Brasil.

A gente mandou muita coisa pra muita gente, não foi por falta de mandar e-mail, enviar material, mas sabemos que as coisas às vezes não chegam nas pessoas. Muitas também nem mesmo leram essas tentativas de contato. A gente fez o nosso movimento, tocando, divulgando… É uma coisa até difícil de lidar. Primeiro você vai pra gringa, ai volta para o Brasil que é um país gigantesco, nós compreendemos as barreiras que existem para o seu som chegar em outros lugares, mas tivemos esse reconhecimento depois do retorno dessa turnê, sim, com certeza.

Foram momentos incríveis. Passamos por coisas horríveis na europa, não podemos florear tudo também. Foram situações que definitivamente não deviríamos passar, mas aconteceu e hoje estamos mais maduros pra voltar a viver tudo isso. 

11. O primeiro disco de vocês, de 2015, foi gravado de forma muito rápida e visceral, e em 2019 veio o Agressão, que já trazia a bagagem daquela sessão explosiva no Estúdio Showlivre em 2018. Olhando para esses dois primeiros trabalhos, eles foram uma resposta direta a tudo o que vocês estavam engolindo e vivendo no circuito underground do interior na época?

O primeiro disco foi feito muito no feeling. A maioria das músicas são do Charles e quando eu entrei duas faixas já estavam gravadas. É uma parada muito orgânica e que o Charles precisava externar.

Na época pude contribuir junto com Chaene na parte musical. Eu na bateria, o Chaene no baixo. O segundo álbum (“Agressão) já foi mais pensado. Foi o primeiro disco nosso que teve um conceito desde a capa, dialogando com as letras.

O processo de composição dessas músicas é muito natural. Acaba saindo coisas em Jams que a gente guarda pra quando for fazer as pré produções. O primeiro e o segundo disco sintetizam as nossas vivências e foram com certeza toda a propulsão necessária para os discos posteriores.

12. No EP Capítulo Negro, lançado em pleno ano de pandemia, vocês trouxeram releituras absurdas de clássicos de bandas pretas como Living Colour e Bad Brains, além de Elza Soares e Jorge Aragão, por exemplo. Gravar esse EP foi uma forma de vocês se apoiarem na própria ancestralidade para ganhar forças naquele momento do mundo, e ao mesmo tempo educar o público de vocês sobre quem veio antes?

Nós gravamos 3 versões e foi legal que cada um sugeriu a sua versão. Eu, por exemplo, sugeri o Jorge Aragão, pois sempre fui muito ligado com o Samba desde adolescente. Essa foi minha contribuição. O Chaene escolheu “Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro”, d’o Rappa e a gente até tocava uma música que o Charles tinha sugerido uma vez, que é “A Carga” música da Elza Soares.

Aliás, pra quem não sabe, esse projeto se transformou num curta metragem. Na época foram gravados 3 clipes que juntos formam esse curto. No Youtube você encontra os vídeos individuais e também tem uma versão que unifica todos os clipes no mesmo vídeo. Eles possuem uma sequência. É um trabalho muito poético, fruto de um período bastante criativo e que a gente precisou da arte pra nos salvar durante a pandemia

Foto: Hugo Brito

Por Guilherme Espir

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